Trump usa o discurso sobre o Estado da União mais longo da história para tentar convencer os eleitores de que os EUA estão 'ganhando muito'
Presidente defendeu sua política tarifária, derrubada pela Suprema Corte do país, e criticou imigrantes nos EUA
O fato principal
Durante o mais longo discurso da história sobre o Estado da União, realizado nesta terça-feira (24.fev.2026), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que o país está "ganhando muito", numa insistência de que ele estaria impulsionando um boom econômico interno e impondo uma nova ordem mundial no exterior. Os índices de aprovação do governo estão em queda.
Contexto
O principal objetivo de Trump era convencer os norte-americanos, cada vez mais cautelosos, de que a economia está mais forte do que muitos acreditam e que eles deveriam continuar apoiando os candidatos republicanos nas eleições de meio de mandato de novembro de 2026, chamadas de midterms.
No total, Trump discursou por um tempo recorde de 108 minutos, superando por 8 minutos a marca anterior, estabelecida por ele mesmo em seu discurso perante uma sessão conjunta do Congresso no ano passado, 2025.
O presidente evitou parte de sua retórica bombástica habitual, desviando-se do roteiro apenas ocasionalmente, principalmente para criticar os democratas.
Como fez em discursos semelhantes durante seu 1º mandato, Trump contou com uma série de convidados especiais surpresa para pontuar dramaticamente sua mensagem. Entre eles, heróis militares norte-americanos e um ex-preso político libertado após as forças dos EUA derrubarem o presidente venezuelano Nicolás Maduro.
Trump recebeu uma das maiores ovações da noite ao convidar a seleção masculina de hóquei dos EUA, medalhista de ouro olímpica, para o plenário da Câmara dos Representantes.
“Nosso país está vencendo novamente. Aliás, estamos vencendo tanto que realmente não sabemos o que fazer a respeito. As pessoas me pedem: 'Por favor, por favor, por favor, Sr. Presidente, estamos vencendo demais. Não aguentamos mais'”, disse Trump antes de apresentar a equipe.
Os jogadores de hóquei, vestindo suas medalhas e suéteres com a inscrição “USA”, receberam uma ovação de pé bipartidária. Trump apontou para o lado democrata do plenário e brincou:
“Essa é a 1ª vez que os vejo se levantarem.”
O presidente anunciou que concederia a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior honraria civil dos Estados Unidos, ao goleiro da equipe de hóquei, Connor Hellebuyck.
Ele também concedeu a medalha Coração Púrpura a Andrew Wolfe, um membro da Guarda Nacional que foi baleado enquanto estava em serviço nas ruas da capital do país. Wolfe fez sua 1ª aparição pública desde então durante o discurso.
Essa cena lembrou um anúncio surpresa semelhante em 2020, quando Trump concedeu a Medalha da Liberdade ao radialista conservador Rush Limbaugh durante seu discurso sobre o Estado da União.
Trump critica decisão sobre tarifas enquanto juízes observam
O presidente defendeu suas medidas repressivas contra a imigração e sua insistência em manter as tarifas generalizadas que a Suprema Corte dos EUA derrubou. Ele recebeu aplausos (irônicos) dos democratas quando descreveu a decisão da Suprema Corte, a qual chamou de "uma decisão infeliz".
Trump prometeu seguir em frente, usando leis "alternativas" para impor as taxas sobre as importações. Disse aos legisladores que driblaria suas prerrogativas:
"A ação do Congresso não será necessária."
Trump argumentou que as tarifas são pagas por países estrangeiros, apesar das evidências de que os custos são arcados por consumidores e empresas norte-americanas.
"Isso está salvando nosso país", disse ele.
Os únicos juízes da Suprema Corte presentes foram o presidente da Suprema Corte, John Roberts, além dos juízes Brett Kavanaugh, Amy Coney Barrett e Elena Kagan. Trump os cumprimentou pessoalmente antes do discurso, apesar de na semana passada ter criticado Coney Barrett –nomeado por ele próprio para a Suprema Corte em seu 1º mandato– por se aliar à maioria contra suas tarifas.
Os democratas também se levantaram para apoiar a promessa de Trump de acabar com o uso de informações privilegiadas por membros do Congresso. Mas o deputado Mark Takano, democrata da Califórnia, gritou:
"Que tal você primeiro?"
A deputada Rashida Tlaib, democrata de Michigan, disse:
"Você é o presidente mais corrupto!"
Trump falou:
"Vocês deveriam ter vergonha de si mesmos."
Mais tarde, o presidente apontou para os democratas e declarou:
"Essas pessoas são loucas."
O deputado democrata Al Green foi escoltado para fora do plenário no início do discurso, depois de abrir uma faixa de protesto que dizia:
"Negros não são macacos!"
Essa foi uma aparente referência a um vídeo racista que o presidente publicou, no qual o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama eram retratados como primatas em uma selva.

Trump convidou parlamentares de ambos os partidos a “proteger os cidadãos americanos, não os imigrantes ilegais” e defendeu propostas para limitar o voto por correio e endurecer as regras de identificação do eleitor.

Acessibilidade financeira recebe relativamente pouca atenção
Trump não se deteve nos esforços para reduzir o custo de vida, apesar das pesquisas mostrarem que sua gestão da economia e de questões cotidianas tem se tornado um problema crescente.
Há também temores persistentes de que as tarifas que impulsionam os preços mais altos possam, eventualmente, prejudicar a economia e a criação de empregos. O crescimento econômico desacelerou nos últimos 3 meses de 2025.
Isso é potencialmente arriscado politicamente às vésperas das eleições de novembro, assim como a onda azul de 2018 representou um forte contrapeso ao seu governo durante seu 1º mandato.
Na terça-feira (24), Trump culpou seu antecessor, o ex-presidente Joe Biden, juntamente com os parlamentares democratas na Câmara, dizendo que eles eram responsáveis pelo aumento dos preços e dos custos da saúde, duas questões que seus oponentes políticos têm levantado repetidamente contra ele.
“Vocês causaram esse problema”, disse Trump sobre as preocupações com a acessibilidade financeira.
Ele acrescentou um momento depois:
“Eles sabiam que suas declarações eram uma mentira suja e desprezível.”
Trump também disse que pressionaria as empresas de tecnologia envolvidas em inteligência artificial a pagarem tarifas de eletricidade mais altas nas áreas onde seus data centers estão localizados. Esses data centers tendem a usar grandes volumes de eletricidade, aumentando o custo da energia para outros consumidores na área.

Outro momento fora do roteiro ocorreu quando Trump se referia aos preços dos medicamentos prescritos e voltou a levantar dúvidas sobre a lisura eleitoral, sem apresentar provas:
"Então, no meu 1º ano do 2º mandato, que deveria ser o meu 3º mandato, mas coisas estranhas acontecem."
Nesta ocasião, republicanos fizeram um coro na Câmara, no qual pediram:
"Mais 4 anos!"
Críticas à política migratória de Trump
A governadora da Virgínia, Abigail Spanberger, que fez o discurso de resposta democrata ao discurso de Trump, criticou duramente as políticas agressivas de imigração do presidente, seus cortes generalizados no governo federal e suas tarifas.
"Mesmo que a Suprema Corte tenha derrubado essas tarifas há 4 dias, o dano para nós, o povo americano, já foi feito. Enquanto isso, o presidente está planejando novas tarifas", disse ela.
Alerta ao Irã
O discurso de Trump ocorreu em meio ao envio de 2 porta-aviões americanos ao Oriente Médio, em tensões com o Irã. O presidente norte-americano deixou em aberto a possibilidade de um ataque direto ao país islâmico. No entanto, desta vez, Trump disse:
"Minha preferência é resolver este problema por meio da diplomacia."
"Mas uma coisa é certa: eu jamais permitirei que o maior patrocinador do terrorismo no mundo –que eles são, de longe– possua uma arma nuclear", acrescentou.

O presidente também relembrou os ataques aéreos norte-americanos do verão passado que atingiram as capacidades nucleares de Teerã.
Trump também elogiou a operação que depôs Maduro na Venezuela, bem como a mediação de seu governo para um cessar-fogo na guerra de Israel com o Hamas em Gaza.
"Como presidente, farei a paz onde quer que eu possa. Mas jamais hesitarei em confrontar as ameaças à América, onde quer que seja necessário", disse.
Apesar do cessar-fogo estabelecido em 10 de outubro de 2025 na Faixa de Gaza, mais de 600 palestinos foram mortos por Israel neste mesmo período –a maioria, mulheres e crianças.
Eis algumas reportagens que publicamos a respeito:



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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.





