Trump diz que Irã quer negociar; número de mortos em protestos chega a 646

Em duas semanas de protestos, o país teve mais de 10 mil detenções. Agora, cidades também registram grandes atos a favor do governo.

Trump diz que Irã quer negociar; número de mortos em protestos chega a 646
Ativistas participam de um protesto em apoio aos manifestantes no Irã, no Lafayette Park, em frente à Casa Branca, em Washington, no domingo, 11 de janeiro de 2026 / Imagem: AP/José Luis Magana
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*Por Jon Gambrell, Julia Nikhinson e Aamer Madhani / Associated Press

O essencial

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Irã quer negociar com Washington após sua ameaça de atacar a República Islâmica por causa da repressão aos manifestantes. Há ao menos 646 pessoas mortas desde que os protestos começaram há cerca de 2 semanas.

“Acho que eles estão cansados de apanhar dos Estados Unidos. O Irã quer negociar”, disse.

O Irã não reagiu diretamente a estes comentários de Trump, feitos após o chanceler do Omã, um tradicional intermediário entre Washington e Teerã, viajar ao país neste fim de semana.

Também não está claro o que o Irã poderia oferecer, especialmente porque Trump impôs exigências rigorosas sobre seu programa nuclear e seu arsenal de mísseis balísticos, que Teerã considera essenciais para sua defesa nacional.

O chanceler iraniano Abbas Araghchi, falando a diplomatas estrangeiros em Teerã, insistiu que “a situação está totalmente sob controle”, em declarações que culparam Israel e EUA pela violência.

“É por isso que as manifestações se tornaram violentas e sangrentas, para dar uma desculpa ao presidente americano para intervir”, disse Araghchi, em comentários transmitidos pela Al Jazeera, rede financiada pelo Catar e que tem sido autorizada a reportar ao vivo dentro do Irã, apesar do corte da internet.

Araghchi afirmou que o Irã está “aberto à diplomacia”. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, disse que um canal com os EUA permanece aberto, mas que as negociações precisam ser “baseadas na aceitação de interesses e preocupações mútuos, não em uma negociação unilateral e ditatorial”.

Enquanto isso, outros manifestantes lotaram as ruas na segunda-feira (12.jan) em apoio ao governo do Irã, numa demonstração de força após dias de protestos que desafiaram diretamente o líder supremo aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos.

A TV estatal iraniana exibiu gritos da multidão, que parecia contar com dezenas de milhares de pessoas, bradando “Morte à América!” e “Morte a Israel!”. Outros gritavam: “Morte aos inimigos de Deus!”.

O procurador-geral do Irã alertou que qualquer pessoa que participe dos protestos contra o governo será considerada “inimiga de Deus”, um crime passível de pena de morte.

A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que a retórica pública do Irã diverge das mensagens privadas que a administração Trump recebeu de Teerã nos últimos dias.

“Acho que o presidente [Trump] tem interesse em explorar essas mensagens. No entanto, o presidente demonstrou que não hesita em usar opções militares quando julgar necessário, e ninguém sabe disso melhor que o Irã”, afirmou Leavitt.

Trump anuncia tarifas adicionais de 25% a quem fizer negócios com o Irã

Trump anunciou nesta segunda-feira (12.jan.2026) que vai impor tarifas comerciais adicionais de 25% a todos os países que fizerem negócios com o Irã.

Esta foi uma medida contra o Irã pela repressão aos protestos. Trump acredita que as tarifas podem ser uma ferramenta para dobrar amigos e inimigos no cenário global. Brasil, China, Rússia, Turquia e Emirados Árabes Unidos estão entre as economias que negociam com Teerã.

A Casa Branca recusou-se a comentar mais sobre o anúncio das tarifas. Trump disse no domingo (11) que sua administração está em conversas para marcar uma reunião com Teerã, mas falou que pode ter de agir primeiro enquanto o número de mortos no Irã aumenta e o governo segue prendendo manifestantes.

O Irã, por meio do presidente do Parlamento, alertou no domingo (11) que o exército dos EUA e Israel seriam “alvos legítimos” caso Washington use força para proteger manifestantes.

“Se fizerem isso [retaliarem os EUA], nós os atingiremos em níveis que nunca sofreram antes”, rebateu Trump.

Mais de 10 mil detidos nos protestos

Nesta imagem capturada de um vídeo que circula nas redes sociais, mostra manifestantes saindo às ruas apesar da crescente repressão, enquanto a República Islâmica permanece isolada do resto do mundo em Teerã, Irã, sexta-feira, 9 de janeiro de 2026 / Imagem: UGC via AP

Mais de 10.700 pessoas foram detidas nas duas semanas de protestos, segundo a Human Rights Activists News Agency, com sede nos EUA, que tem sido precisa em agitações anteriores e divulgou o novo saldo de mortos no início desta terça-feira (13).

Segundo a agência, 512 mortos eram manifestantes e 134 eram membros das forças de segurança. Ela se baseia em apoiadores no Irã que verificam e cruzam as informações.

Com a internet cortada no Irã e linhas telefônicas bloqueadas, dimensionar as manifestações do exterior ficou mais difícil. A Associated Press não conseguiu avaliar independentemente o saldo de mortos. O governo iraniano não divulgou números gerais de vítimas.

Às 14h de segunda-feira, a TV estatal iraniana mostrou imagens de manifestantes lotando Teerã em direção à Praça Enghelab, ou “Praça da Revolução Islâmica”.

O canal exibia desde a manhã declarações de líderes governamentais, de segurança e religiosos convocando para o ato. Chamou o comício de “levante iraniano contra o terrorismo americano-sionista”, sem abordar a raiva subjacente no país pela economia debilitada.

A TV estatal exibiu imagens de manifestações semelhantes pelo país, tentando sinalizar que superou os protestos.

Medo domina a capital iraniana

Em Teerã, uma testemunha disse à AP que as ruas ficam vazias no chamado à oração do pôr do sol todas as noites. Na oração noturna Isha, as vias estão desertas. Parte disso vem do medo de ser pego na repressão.

A polícia enviou uma mensagem de texto ao público iraniano com um alerta:

“Dada a presença de grupos terroristas e indivíduos armados em alguns ajuntamentos na noite passada e seus planos de causar mortes, e a decisão firme de não tolerar apaziguamento e lidar decisivamente com os desordeiros, as famílias são fortemente aconselhadas a cuidar de seus jovens e adolescentes.”

Outra mensagem, que dizia vir do braço de inteligência da Guarda Revolucionária paramilitar, também alertou diretamente as pessoas a não participarem de manifestações.

A testemunha falou sob anonimato devido à repressão em curso.

💡
Os protestos no Irã começaram em 28 de dezembro devido ao colapso do rial iraniano, negociado a mais de 1,4 milhão por 1 dólar, com a economia iraniana sufocada por sanções internacionais, em parte impostas por causa de seu programa nuclear. As manifestações se intensificaram e se tornaram apelos diretos que desafiam a teocracia iraniana.

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*Jon Gambrell reportou de Dubai, Emirados Árabes Unidos, e Julia Nikhinson reportou a bordo do Air Force One. Melanie Lidman contribuiu para esta reportagem a partir de Tel Aviv, Israel.

Autor

Associated Press
Associated Press

Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

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