Sul Global não pode ser apenas receptor de tecnologias climáticas, diz presidente de comitê da ONU
Pedro Ivo Ferraz da Silva, diplomata brasileiro que preside o Comitê Executivo de Tecnologia da Convenção do Clima, defende postura ativa dos países em desenvolvimento para dominar as inovações da transição energética
A emergência climática impõe ao mundo uma corrida tecnológica. Em entrevista exclusiva ao Correio Sabiá, o diplomata do Itamaraty Pedro Ivo Ferraz da Silva, presidente do TEC (Comitê Executivo de Tecnologia) da ONU-Clima, reconheceu que o padrão histórico de concentração tecnológica no Norte Global corre o risco de se repetir na transição para uma economia de baixo carbono. E disse que cabe aos países do Sul adotarem uma postura diferente desta vez.
"Há uma percepção, um temor de que realmente a transição para uma economia de baixo carbono cometa os mesmos pecados, os mesmos erros que a Revolução Industrial, para justamente criar essa disparidade entre provedores e consumidores de tecnologia", disse Pedro Ivo. "Eu acho que já há sinais evidentes desse começo de transição que indicam que esse padrão pode se reproduzir."
Assista à entrevista completa no canal do Correio Sabiá no YouTube.
O TEC foi criado formalmente em 2010, a partir de uma decisão no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, e opera desde 2011. Seu papel é duplo: avaliar tecnologias emergentes com potencial para o enfrentamento da crise climática e formular recomendações políticas para que elas sejam adotadas, desenvolvidas e difundidas, especialmente nos países em desenvolvimento. Pedro Ivo assumiu a presidência do comitê em abril deste ano, com mandato de 1 ano, ocupando uma das 3 vagas destinadas à América Latina e ao Caribe.
A exceção chinesa e o que ela ensina

Para o diplomata, o maior exemplo de que é possível inverter a lógica de dependência tecnológica veio de um lugar inesperado para muitos: a China. Em poucas décadas, o país passou de consumidor a líder global na produção de tecnologias climáticas e hoje bate recordes consecutivos no registro de patentes na área.
"O caso chinês é muito exemplar", afirmou Pedro Ivo. "A China desenvolveu o que a economia da inovação chama de capacidade de absorção: você tem uma atitude ativa em relação à tecnologia que está se desenvolvendo, você já recebe essa tecnologia com um viés voltado a aprimorá-la e a dominá-la."
Essa postura ativa se traduziu em medidas concretas. Quando empresas do Norte Global chegaram ao país para investir no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (o instrumento do Protocolo de Kyoto de transferência de tecnologia por créditos de carbono), a China exigiu joint ventures com empresas locais e licenciamentos que garantissem o domínio doméstico das tecnologias. O resultado, no médio prazo, foi o protagonismo que o país exerce hoje no setor de energias renováveis.
O Brasil, segundo Pedro Ivo, tem dado passos na mesma direção ao insistir no processamento doméstico de minerais críticos em vez de exportá-los em estado bruto.
"O que a gente quer é que ocorra no território brasileiro o processamento do minério, e que a gente não exporte em seu estado mais puro", disse.
A Indonésia tem feito movimentos semelhantes, especialmente no setor de níquel.
Inteligência artificial: ferramenta ou novo passivo climático?
A inteligência artificial entrou definitivamente na agenda climática multilateral na COP28, em 2023, quando apareceu pela 1ª vez numa decisão do balanço global. Desde então, o TEC tem buscado mapear tanto suas promessas quanto seus riscos.
Do lado positivo, Pedro Ivo enumera aplicações que vão da otimização de processos industriais intensivos em carbono ao transporte inteligente e à agricultura de precisão. Do lado negativo, o diplomata diz:
"A IA também tem um passivo ambiental climático muito expressivo, seja no consumo energético e nas emissões associadas, seja no consumo hídrico, seja no consumo de materiais, a ocupação de espaço de data centers."
Mas o problema não é apenas ambiental; é também geopolítico. Para que a IA cumpra sua promessa como ferramenta de combate à mudança do clima, ela precisa ser acessível aos países do Sul Global, o que hoje está longe de ser garantido.
O TEC tem chamado a atenção para alternativas aos grandes modelos de linguagem, como os chamados SLMs (small language models), mais eficientes e específicos por tarefa.
"Pensar que a IA pode ser eficiente com menos recursos é uma abordagem interessante para países em desenvolvimento", afirmou Pedro Ivo.
O Brasil, nesse contexto, aparece como referência: o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial é um dos poucos planos nacionais em que a sustentabilidade figura como eixo central, e não como apêndice.
Oceano e comunidades: do esquecimento à decisão da COP30
O Correio Sabiá perguntou diretamente ao presidente do TEC sobre 2 temas que costumam ser relegados ao 2º plano no debate climático: o oceano e as comunidades tradicionais impactadas por empreendimentos de energia renovável, como eólicas offshore.
Na frente oceânica, Pedro Ivo confirmou que o Climate Technology Progress Report deste ano –publicação conjunta do TEC e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)– terá o oceano como tema central, abordando tanto tecnologias de aproveitamento energético a partir das marés quanto os riscos de experimentos de geoengenharia marinha. O relatório deve ser lançado na COP31.
"O oceano vai crescer cada vez mais na agenda da Convenção do Clima e na agenda internacional como um todo", afirmou.
Sobre as comunidades tradicionais, Pedro Ivo destacou um avanço histórico da COP30, realizada em Belém: pela 1ª vez, uma decisão formal da conferência climática mencionou tecnologias indígenas.
"A ideia é justamente olhar para tecnologias que são concebidas localmente para endereçar problemas locais e mostrar que essas tecnologias muitas vezes são as mais eficientes, porque estão inteiramente alinhadas com as necessidades de uma comunidade", disse.
Além disso, o TEC prepara para este ano um produto sobre sistemas de alerta precoce baseados em dados comunitários, reconhecendo que as comunidades não são apenas receptoras de tecnologias, mas também produtoras de conhecimento e capazes de pautar decisões sobre infraestrutura.
"As comunidades têm um papel não apenas de envolver tecnologias, mas também de indicar impactos, de chamar a atenção e agregar informação que possa chamar a atenção das autoridades públicas", afirmou Pedro Ivo.
Guerra comercial ameaça a cooperação climática
O contexto geopolítico atual representa, segundo o diplomata, um obstáculo concreto para o trabalho do mecanismo de tecnologia. A tensão comercial entre Estados Unidos e China, que criou uma bifurcação tecnológica global, afeta diretamente a transferência de tecnologias entre países, inclusive aquelas necessárias para países em desenvolvimento subirem na cadeia de valor climática.
"Esse contexto, com essa guerra comercial que a gente está assistindo ocorrer, acaba prejudicando, de fato, a atingir os objetivos de desenvolver a transferência tecnológica no âmbito do regime", disse Pedro Ivo.
Quanto a escolher lados nessa disputa, a posição do Brasil é clara:
"A gente não escolhe lado. A gente busca defender o interesse nacional nos diferentes fóruns, nos diferentes relacionamentos."
A questão que fica, portanto, não é apenas tecnológica, mas política: se o Sul Global vai conseguir, desta vez, sair da condição de objeto da história climática para se tornar sujeito dela.
*Entrevista realizada pelo Correio Sabiá. Pedro Ivo Ferraz da Silva é diplomata de carreira, coordenador de temas científicos e tecnológicos do Departamento de Clima do Itamaraty e presidente do TEC desde abril de 2026.
Autor
Jornalista e empreendedor. Criador/CEO do Correio Sabiá. Emerging Media Leader (2020) pelo ICFJ. Cobriu a Presidência da República.