Petróleo enriqueceu o Golfo Pérsico, mas a água dessalinizada é o que mantém a região viva
Vital para milhões de pessoas no Kuwait, no Omã e na Arábia Saudita, água dessalinizada é o elo mais frágil na região árida
*Por Annika Hammerschlag
O fato principal
Enquanto mísseis e drones limitam a produção e a exportação de energia em todo o Golfo Pérsico, analistas alertam que a água, e não o petróleo, pode ser o recurso mais ameaçado na região.
No domingo (8.mar.2026), o Irã disse que um ataque aéreo dos EUA danificou uma de suas estações de dessalinização. Depois, o Bahrein acusou o Irã de fazer o mesmo.
Contexto
Para pessoas que vivem fora do Oriente Médio, a principal preocupação com a guerra no Irã tem sido o impacto nos preços de energia. Isso porque o Golfo produz cerca de 1/3 das exportações mundiais de petróleo bruto, e as receitas de energia sustentam as economias nacionais.
Os combates já paralisaram o tráfego de petroleiros por rotas marítimas-chave e perturbaram as atividades portuárias, forçando alguns produtores a reduzir exportações à medida que os tanques de armazenamento se enchem.
No entanto, a infraestrutura que mantém as cidades do Golfo Pérsico com água potável é a maior vulnerabilidade para quem vive na região.
“Todos pensam na Arábia Saudita e seus vizinhos como petrostados. Mas eu os chamo de reinos de água salgada. Eles são superpotências de água movidas a fósseis criadas pelo homem”, disse o diretor do Centro do Oriente Médio da Universidade de Utah, Michael Christopher Low.
Centenas de plantas de dessalinização estão localizadas ao longo da costa do Golfo, colocando sistemas que fornecem água para milhões de pessoas ao alcance de mísseis ou drones.
Sem essas estações, grandes cidades não conseguiriam sustentar suas populações atuais. No Kuwait, cerca de 90% da água potável vem da dessalinização, assim como aproximadamente 86% no Omã e cerca de 70% na Arábia Saudita.
A tecnologia remove o sal da água do mar (na maioria das vezes, empurrando a água através de membranas ultrafinas em um processo conhecido como osmose reversa) para produzir a água doce que sustenta as cidades, os hotéis, as indústrias e a agricultura em uma das regiões mais secas do mundo.
“É ao mesmo tempo uma conquista monumental do século XX e um tipo certo de vulnerabilidade”, declarou Low.
Sinais iniciais de risco

A guerra que começou em 28 de fevereiro com ataques dos EUA e de Israel ao Irã já levou a combates próximos à infraestrutura-chave de dessalinização.
Em 2 de março, ataques iranianos ao porto Jebel Ali, em Dubai, caíram a cerca de 12 milhas de uma das maiores plantas de dessalinização do mundo, que produz grande parte da água potável da cidade.
Inicialmente, dados de satélite sugeriram um possível incêndio perto do complexo de energia e água Fujairah F1, nos Emirados Árabes Unidos, após ataques próximos. No entanto, o operador da planta disse que a instalação não foi danificada.
Danos foram relatados na planta de dessalinização Doha West, no Kuwait. Os motivos aparentes: ataques próximos ao porto ou detritos de drones interceptados.
No domingo, o Bahrein acusou o Irã de atacar indiscriminadamente alvos civis e danificar uma de suas plantas de dessalinização. A nação insular, sede da 5ª Frota da Marinha dos EUA, está entre os países alvejados por drones e mísseis iranianos.
Anteriormente, o Irã disse que um ataque aéreo dos EUA danificou uma planta de dessalinização iraniana. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, disse que o ataque na ilha de Qeshm, no Estreito de Ormuz, cortou o suprimento de água para 30 vilarejos.
“Os EUA criaram esse precedente, não o Irã”, declarou Araghchi.
Muitas plantas de dessalinização do Golfo estão fisicamente integradas a usinas de energia como instalações de cogeração, o que significa que ataques à infraestrutura elétrica também poderiam prejudicar a produção de água.
Mesmo onde as plantas estão conectadas a redes nacionais com rotas de suprimento de backup, interrupções podem se espalhar por sistemas interconectados, disse o fellow sênior para segurança hídrica do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, David Michel.
“É uma tática assimétrica”, disse ele.
“O Irã não tem a mesma capacidade de revidar contra os Estados Unidos e Israel. Mas tem essa possibilidade de impor custos aos países do Golfo para pressioná-los a intervir ou pedir o cessar-fogo”, acrescentou.

As plantas de dessalinização têm múltiplos estágios –sistemas de captação, instalações de tratamento, suprimentos de energia– e danos a qualquer parte dessa cadeia podem interromper a produção, de acordo com o editor para o Oriente Médio da Global Water Intelligence, Ed Cullinane.
“Nenhum desses ativos está mais protegido do que qualquer área municipal que está sendo atingida atualmente por mísseis balísticos ou drones”, disse Cullinane.
Preocupação de longa data

Governos do Golfo e autoridades dos EUA reconhecem os riscos que esses sistemas representam para a estabilidade regional. Se grandes plantas de dessalinização fossem derrubadas, algumas cidades poderiam perder a maior parte de sua água potável em dias.
Uma análise da CIA de 2010 alertou que ataques a instalações de dessalinização poderiam desencadear crises nacionais em vários estados do Golfo, e interrupções prolongadas poderiam durar meses se equipamentos críticos fossem destruídos.
Um cabo diplomático dos EUA vazado em 2008 alertou que a capital saudita, Riad, “teria que evacuar em uma semana” se a planta de dessalinização de Jubail, na costa do Golfo, ou seus oleodutos ou infraestrutura de energia associada fossem gravemente danificados.
Desde então, a Arábia Saudita investiu em redes de oleodutos, reservatórios de armazenamento e outras redundâncias projetadas para amortecer interrupções de curto prazo, assim como os Emirados Árabes Unidos. Mas Estados menores, como Bahrein, Qatar e Kuwait, têm menos suprimentos de reserva.
Mudanças climáticas ameaçam plantas de água
À medida que os oceanos mais quentes aumentam a probabilidade e a intensidade de ciclones no Mar Arábico, assim como elevam as chances de deslizamento de terras na Península Arábica, surtos de tempestade e chuvas extremas poderiam sobrecarregar sistemas de drenagem e danificar a dessalinização costeira.
As próprias plantas contribuem para o problema. A dessalinização é intensiva em energia, com plantas em todo o mundo produzindo entre 500 e 850 milhões de toneladas de emissões de carbono anualmente.
Para comparação, o número é próximo às emissões de toda a indústria de aviação global: cerca de 880 milhões de toneladas de carbono.
O subproduto da dessalinização, a salmoura altamente concentrada, é tipicamente descarregado de volta ao oceano, onde pode prejudicar habitats do fundo do mar e recifes de coral, enquanto sistemas de captação podem capturar e matar larvas de peixes, plâncton e outros organismos na base da cadeia alimentar marinha.
À medida que as mudanças climáticas intensificam secas, perturbam padrões de chuva e alimentam incêndios florestais, espera-se que a dessalinização se expanda em muitas partes do mundo.

Ameaça tem precedentes históricos
Durante a invasão do Iraque ao Kuwait (1990-1991) e a subsequente Guerra do Golfo, forças iraquianas sabotaram usinas de energia e instalações de dessalinização. Ao mesmo tempo, milhões de barris de petróleo bruto foram liberados no Golfo Pérsico, criando um dos maiores derramamentos de óleo da história.
A enorme mancha ameaçou contaminar tubos de captação de água do mar usados por plantas de dessalinização em toda a região. Trabalhadores correram para implantar barreiras protetoras ao redor das válvulas de captação de grandes instalações.

A destruição deixou o Kuwait em grande parte sem água fresca e dependente de importações emergenciais de água. A recuperação total levou anos.
Mais recentemente, rebeldes houthis do Iêmen alvejaram instalações de dessalinização sauditas em meio a tensões regionais.
Os incidentes destacam uma erosão mais ampla de normas de longa data contra ataques à infraestrutura civil, disse Michel, citando conflitos na Ucrânia, em Gaza e no Iraque.
O direito humanitário internacional, incluindo disposições das Convenções de Genebra, proíbe alvejar infraestrutura civil indispensável à sobrevivência da população, incluindo instalações de água potável.
O potencial para ciberataques prejudiciais à infraestrutura de água é uma preocupação crescente. Em 2023 e 2024, autoridades dos EUA culparam grupos alinhados ao Irã por hackear várias utilities de água americanas.
Suprimento de água do Irã em risco

Após um 5º ano de seca extrema, os níveis de água nos 5 reservatórios de Teerã caíram para cerca de 10% de sua capacidade, levando o presidente Masoud Pezeshkian a alertar que a capital pode ter que ser evacuada.
Diferentemente de muitos estados do Golfo que dependem fortemente da dessalinização, o Irã ainda obtém a maior parte de sua água de rios, reservatórios e aquíferos subterrâneos esgotados. O país opera um número relativamente pequeno de plantas de dessalinização, suprindo apenas uma fração da demanda nacional.
O Irã está correndo para expandir a dessalinização ao longo de sua costa sul e bombear parte da água para o interior, mas restrições de infraestrutura, custos de energia e sanções internacionais limitaram drasticamente a escalabilidade.
“Eles já estavam pensando em evacuar a capital no verão passado”, disse Cullinane, da Global Water Intelligence.
“Não ouso imaginar como vai ser este verão sob fogo sustentado, com uma catástrofe econômica em curso e uma grave crise de água”, acrescentou.
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.

