Partido de extrema-direita da Alemanha caminha para vitória em eleição regional, mas incerteza paira sobre possibilidade de governar
Conquistar o 1º governo estadual seria a maior vitória nos 13 anos de história do partido anti-imigração
*Por Geir Moulson e Kerstin Sopke
O fato principal
Projeções indicavam uma vitória expressiva do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) em uma eleição regional neste domingo (6.set.2026), mas não estava claro de imediato se a legenda conseguiria concretizar sua ambição de formar o 1º governo estadual de extrema-direita do país desde a Segunda Guerra Mundial.
O partido do impopular líder alemão, o chanceler Friedrich Merz, caminhava para um resultado desastroso no estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país.
O candidato a governador do Alternativa para a Alemanha — partido contrário à imigração e favorável à Rússia — declarou:
"Fizemos história."
Ulrich Siegmund, de 35 anos, disse à emissora pública ARD que os eleitores enviaram um sinal de que "as coisas não podem continuar assim" e que isso foi "também um sinal para Berlim". Sobre o impopular líder alemão, ele afirmou:
"Friedrich Merz foi um excelente cabo eleitoral para nós nesta campanha. Cada dia que esse homem passa na Chancelaria é um dia a mais do que o tolerável."
AfD queria governar sozinho
O AfD entrou na disputa buscando a maioria absoluta na legislatura estadual para governar sozinho. Isso superaria o chamado "cordão sanitário" — a recusa dos partidos tradicionais em colaborar com o AfD —, mas, muito tempo após o fechamento das urnas, ainda não estava claro se isso aconteceria.
Conquistar o 1º governo estadual seria a maior vitória nos 13 anos de história do partido anti-imigração, ocorrendo em um momento de descontentamento generalizado com o governo nacional, que ainda não conseguiu convencer os eleitores de que é capaz de fazer a economia estagnada do país voltar a crescer.
Independentemente de o AfD conseguir ou não formar governo, o resultado projetado representa um golpe para Merz, cujo partido de centro-direita governa a Saxônia-Anhalt há 24 anos.
Ao contrário de outros países da Europa, a Alemanha moderna ainda não teve um partido de extrema-direita ou populista de direita liderando um governo nacional, estadual ou de uma grande cidade.
No entanto, o AfD é o maior partido de oposição no Parlamento nacional da Alemanha e tem sua maior força no leste — região anteriormente comunista e menos próspera —, onde se situa a Saxônia-Anhalt.
Sua seção regional na Saxônia-Anhalt é uma das várias classificadas como um grupo comprovadamente extremista de direita pela agência de inteligência interna, que aponta, entre outras coisas, o fato de membros denegrirem migrantes de países muçulmanos.
O partido fala em "remigração", um termo politicamente carregado para a deportação de imigrantes. Seu líder em um estado vizinho recorreu de duas condenações por usar conscientemente um slogan nazista. O AfD rejeita as acusações de extremismo.
Queda do partido do líder alemão
Projeções das emissoras públicas ARD e ZDF, baseadas em pesquisas de boca de urna e na apuração parcial, indicam que o AfD obteve pouco mais de 44% dos votos — mais que o dobro do resultado obtido há 5 anos na região, que conta com 2,1 milhões de habitantes e fica a oeste de Berlim.
Esse índice ficou muito acima do registrado pela União Democrata-Cristã (CDU), de Merz, que aparecia com 18% das intenções de voto, perdendo cerca de metade de seu apoio. O partido A Esquerda (Die Linke), os Social-Democratas (centro-esquerda) e os Verdes apareciam com cerca de 9% cada.
Não estava claro se o partido BSW alcançaria os 5% dos votos necessários para conquistar cadeiras. As projeções indicavam que o AfD ficaria, ainda que por pouco, abaixo da maioria absoluta, embora isso pudesse mudar.
A co-líder nacional do AfD, Alice Weidel, descreveu o resultado projetado como "sensacional" e afirmou que o partido recebeu "um mandato muito claro para governar aqui".
"[A legenda] estende a mão a todos que querem tornar a Saxônia-Anhalt melhor e fazer a Alemanha avançar", disse ela.
Visivelmente decepcionado, o governador em exercício, Sven Schulze, parabenizou o AfD por se tornar a força política mais forte do estado e disse que "nós, da CDU, também teremos de lidar com esse resultado", sem especificar como.
Franziska Hoppermann, secretária-geral nacional do partido de Merz, rejeitou a ideia de recuar na recusa de negociar com a AfD.
“A AfD é um partido de extrema-direita. Ela quer abandonar o euro; isso significaria o colapso econômico... o partido atua em estreita colaboração com a Rússia e defende um modelo social completamente diferente”, disse ela. “Não trabalharemos com eles.”
Já houve um caso em que a AfD venceu uma eleição estadual, mas acabou não governando. Isso ocorreu há 2 anos na vizinha Turíngia, onde um governador da CDU assumiu o poder à frente de um governo de minoria, mas enfrentou uma AfD regional que estava longe de obter a maioria.
Se o resultado permitir que Schulze tente articular algum tipo de aliança com partidos menores, a situação será delicada, pois exigirá pelo menos algum apoio tácito do Partido de Esquerda (Die Linke) — uma legenda de esquerda radical com a qual a CDU se recusa a formar coalizões.
Estados alemães possuem amplos poderes
Os 16 estados da Alemanha detêm amplos poderes, como, por exemplo, na supervisão de questões de segurança e na gestão do sistema educacional.
Siegmund elencou, entre suas principais prioridades, uma "ofensiva de deportações" e o fim de incentivos para que pessoas venham à Alemanha e "explorem nosso sistema de assistência social". Ele pretende iniciar um longo processo para retirar a Saxônia-Anhalt da emissora pública regional, citando preocupações com a "desinformação".
O partido AfD na Saxônia-Anhalt quer permitir o ensino domiciliar (homeschooling), prática que, até o momento, não é autorizada na Alemanha.
A legenda promete proibir as escolas de hastear oficialmente a bandeira do arco-íris e garantir que elas exibam a bandeira nacional.
O partido se opõe ao repasse de dinheiro dos contribuintes à Ucrânia e afirma que pressionará pela suspensão das sanções contra a Rússia — embora essa não seja uma decisão que caiba aos governos estaduais.
Os governos estaduais também têm assento na Câmara Alta do Parlamento alemão, órgão que precisa aprovar certas legislações do governo.
A influência da Saxônia-Anhalt — um dos menores estados alemães, nação com 83,5 milhões de habitantes — é limitada: o estado tem 4 dos 69 votos.
*Geir Moulson reportou de Berlim.
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Agência de notícias global e independente, baseada nos EUA. Fundada em maio de 1846.
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