🇮🇷 Irã já teve momento democrático

Queda do regime ocorreu com apoio dos EUA e do Reino Unido, com petróleo como pano de fundo

🇮🇷 Irã já teve momento democrático
Iranianos participam de um protesto antigovernamental em Teerã, Irã, sexta-feira, 9 de janeiro de 2026 / Imagem: AP
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O destaque

Mais de 2,5 mil pessoas morreram em decorrência da repressão do governo do Irã aos protestos generalizados pelo país, que já duram mais de 2 semanas. Desde que os atos começaram, foram registradas mais de 600 manifestações em 31 cidades. Mais de 18 mil pessoas foram detidas.

Agora, fala-se também em dar mais rapidez aos julgamentos e às execuções de manifestantes, conforme sinalização do chefe do Judiciário do Irã, Gholamhossein Mohseni-Ejei.

“Se queremos fazer algo, devemos fazer agora. Se queremos agir, temos que fazer rápido. Se demorarmos 2 ou 3 meses, o efeito não será o mesmo. Temos que agir rapidamente”, disse ele num comentário em um vídeo compartilhado pela televisão estatal iraniana.
Irã sinaliza julgamentos e execuções rápidas de manifestantes
Número de mortos em repressão ultrapassa 2.500
Esta captura de tela de vídeos gravados entre 9 e 11 de janeiro de 2026, e que circulam nas redes sociais, supostamente mostra imagens de um necrotério com dezenas de corpos e pessoas em luto após a repressão nos arredores da capital do Irã, em Kahrizak, província de Teerã / Imagem: UGC via AP

Funeral em massa

Dezenas de milhares de pessoas de luto lotaram as ruas próximas à Universidade de Teerã para um funeral de mais de 300 membros das forças de segurança do governo e de civis nesta quarta-feira (14). Neste caso, os atos eram pró-governo.

Muitos carregavam bandeiras iranianas e fotos de seus parentes e do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei.

A multidão gritava e batia no peito em resposta a um mestre de cerimônias que falava de um palco. Um homem ergueu uma foto do presidente dos EUA, Donald Trump, durante a tentativa de assassinato na Pensilvânia, com a legenda:

"A flecha nem sempre erra!"

O apresentador culpou os EUA pelos protestos no país:

"Todos os nossos problemas são por causa da América, os problemas econômicos de hoje são por causa das sanções americanas. Morte à América!", gritou, provocando o mesmo grito das dezenas de milhares de pessoas, vestidas majoritariamente de preto.
Funeral em massa: número de mortos em protestos no Irã supera 2.500
São mais de 18 mil pessoas detidas nos protestos.

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Irã teve momento democrático

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Quem olha os protestos de 2025 talvez não saiba que o Irã viveu, ao longo do século XX, um breve experimento democrático que foi interrompido por interferência externa, abrindo caminho para décadas de autoritarismo e, posteriormente, para a atual teocracia islâmica.

Após a Segunda Guerra Mundial, o país adotou um sistema parlamentar relativamente plural. Em 1951, o então primeiro-ministro Mohammad Mossadegh chegou ao poder por vias democráticas, com forte apoio popular e do Parlamento.

Nacionalista e reformista, Mossadegh tomou uma decisão que marcaria o destino do país: nacionalizar a indústria do petróleo, até então controlada por interesses britânicos, sobretudo pela Anglo-Iranian Oil Company (atual BP).

Irã já teve governo democrático que caiu com interferência dos EUA e do Reino Unido, com petróleo como pano de fundo
Por décadas, os 2 países também deram apoio a outro governo autoritário, mas alinhado ao Ocidente

Queda ocorreu com interferência dos EUA e do Reino Unido

A medida enfrentou dura reação do Reino Unido e dos Estados Unidos, que viam a nacionalização como uma ameaça estratégica e econômica, além do temor –típico do contexto da Guerra Fria– de que o Irã se aproximasse da União Soviética.

Em 1953, Mossadegh foi deposto em um golpe de Estado articulado pela CIA (Central Intelligence Agency, o serviço de inteligência estrangeira dos EUA) e pelo MI6, o serviço de inteligência britânico, na chamada Operação Ajax.

Com a queda de Mossadegh, o poder foi consolidado nas mãos do xá Mohammad Reza Pahlavi, que governou o país de forma cada vez mais autoritária.

Embora o regime Pahlavi promovesse modernização econômica e costumes mais secularizados, ele se sustentava por meio de repressão política, censura e uma polícia secreta (a SAVAK), com amplo apoio dos Estados Unidos.

Esse modelo provocou crescente insatisfação popular, reunindo setores diversos da sociedade iraniana –religiosos, intelectuais, trabalhadores e estudantes– em oposição ao xá.

O descontentamento culminou na Revolução Islâmica de 1979, que derrubou a monarquia e instaurou uma República Islâmica, então liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, que governou até 1989 (sendo sucedido pelo aiatolá Ali Khamenei, que governa até hoje).

Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, no poder desde 1989 / Imagem: AP Photo

Trump diz que 'ajuda está a caminho'

O presidente dos EUA, Donald Trump, fez um post nas redes sociais nesta terça-feira (13) pelo qual estimulava que os manifestantes continuassem nas redes e aguardassem por uma ajuda norte-americana que, segundo ele, estaria "a caminho".

Trump não detalhou que ajuda seria essa. O presidente norte-americano também falou que cancelou reuniões com autoridades iranianas por causa da sangrenta repressão aos protestos.

Enquanto isso, diplomatas árabes, sob condição de anonimato (já que não estão autorizados a falar com a imprensa), disseram off-the-record para a Associated Press que estão tentando dissuadir Trump de fazer um ataque militar ao Irã.

Trump cancela reuniões com autoridades iranianas e diz a manifestantes que ‘a ajuda está a caminho’
Mais de 2 mil pessoas teriam morrido, enquanto outras 16.700 teriam sido detidas

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