Eleitores da Islândia rejeitam proposta de retomar negociações para adesão à União Europeia
Votação foi antecipada por contexto de ameaças do presidente dos EUA à Groenlândia; entenda
*Por Kwiyeon Ha e Brian Melley
O fato principal
Os eleitores da Islândia rejeitaram a retomada das negociações para ingressar na União Europeia (UE) em um referendo que colocou em confronto preocupações com a estabilidade geopolítica e a manutenção do controle nacional sobre as valiosas zonas de pesca do país, informaram autoridades no domingo.
Os opositores da medida venceram com uma margem de 52,8% contra 47,2%, segundo a Comissão Eleitoral Nacional. O resultado encerra, por enquanto, a questão polêmica — mais de uma década depois de um governo eurocético ter encerrado as negociações com a UE, iniciadas após a crise financeira de 2008.
A votação deste sábado (29.ago.2026) ocorreu em meio a ameaças recorrentes do presidente dos EUA, Donald Trump, de assumir o controle da vizinha Groenlândia. Embora a Islândia seja membro da OTAN, defensores da adesão argumentavam que a solidariedade europeia ofereceria maior proteção caso Trump fizesse ameaças semelhantes contra a ilha vulcânica.

O governo de coalizão de esquerda da Islândia, eleito em 2024, antecipou o referendo sobre a UE — originalmente planejado para o próximo ano — depois que Trump mencionou erroneamente a Islândia 4 vezes ao falar sobre suas intenções em relação à Groenlândia.
Eleitores responderam a uma pergunta simples
A primeira-ministra Kristrún Frostadóttir afirmou não ver a derrota como um revés para seu governo de coalizão, mas sim como uma vitória para a democracia, dado que mais de 82% dos 270 mil eleitores aptos compareceram às urnas. Ela declarou que respeitaria o resultado, mas não descartou uma futura tentativa de retomar o assunto.
"Aconteceram coisas nos últimos anos que eu não poderia ter previsto", disse ela. "Mas este governo não dará prosseguimento a isso. E algo importante precisa mudar nos próximos 24 meses para que esse tema volte ao topo da agenda."
Guðrún Hafsteinsdóttir, líder do opositor Partido da Independência e contrária à medida, afirmou que o resultado representa um golpe para o governo, mas não para as relações com a Europa.
"A melhor maneira de curar as feridas é o governo ouvir a conclusão e deixar esse caminho de lado", disse ela à RUV, a emissora nacional. "Como queremos manter contato próximo com a União Europeia, com a Europa e com o maior número possível de outros países, a nação está enviando uma mensagem clara de que pretendemos conduzir esse processo por conta própria."
Os eleitores enfrentaram uma pergunta simples de "sim" ou "não": a Islândia deveria retomar as negociações de adesão à União Europeia? A região da capital, Reykjavik, foi a única área da nação insular de 400 mil habitantes onde a maioria apoiou o referendo.
A influente indústria pesqueira liderou a oposição ao referendo, temendo que a política comum de pesca do bloco abrisse suas águas a embarcações de arrasto espanholas, holandesas e de outras nacionalidades.
Islândia já integra o mercado único da UE

Descendentes de vikings, os islandeses — que conquistaram a independência da Dinamarca em 1944 — vivem do mar há séculos, e a pesca é fundamental para sua identidade nacional.
A Islândia tem uma história de orgulho ao recusar-se a ceder a pressões de nações europeias maiores e mais ricas, tendo vencido as chamadas "Guerras do Bacalhau" contra a Grã-Bretanha na década de 1970, em defesa do direito de controlar suas próprias águas.
Os opositores se basearam no fato de que a Islândia já colhe os benefícios de integrar o mercado único da UE — que permite a livre circulação de bens e serviços — e a zona de livre circulação de Schengen, sem as concessões de soberania que acompanham a adesão plena.
Eles argumentavam que a voz da Islândia seria pouco ouvida no vasto Parlamento Europeu e que seria mais vantajoso para o país negociar seus próprios acordos comerciais, como o firmado com a China.
Os defensores da adesão argumentavam que ela reduziria a inflação e as taxas de juros, e que o euro traria mais estabilidade do que a volátil moeda islandesa, a coroa. Sustentavam também que seria do interesse nacional aproximar-se dos vizinhos europeus para enfrentar questões que transcendem fronteiras, como as mudanças climáticas.
Outros países enfrentam um caminho mais difícil para a adesão à UE
Se a proposta tivesse sido aprovada, teria sido um passo preliminar para retomar o longo processo de negociação com o braço executivo da UE, a Comissão Europeia, abordando áreas que vão da economia aos direitos humanos. Qualquer acordo negociado ainda precisaria ser aprovado pelos eleitores.
O resultado certamente decepcionará muitos na União Europeia. Como um país rico, estável e democrático, com vastas zonas de pesca, a Islândia poderia ter ingressado no bloco de forma relativamente rápida. A Croácia foi o último país a aderir, em 2013.
A maioria dos outros candidatos que aguardam adesão — incluindo vários países dos Bálcãs, além da Moldávia e da Ucrânia, assolada por conflitos — ainda precisa realizar reformas demoradas para adequar suas leis e normas às da UE.
A inclusão da Islândia no clube dos ricos da Europa — talvez juntamente com Montenegro e, possivelmente, a Moldávia — nos próximos dois anos poderia ter ajudado a superar os danos causados à UE pela saída do Reino Unido em 2020, embora Londres agora pareça disposta a restabelecer laços.
O eleitor Daniel Bjarkason, que se opôs à medida, disse que a Islândia deveria esperar uma ou duas décadas antes de tentar novamente ingressar na UE.
"Por enquanto, estamos muito divididos, e isso não pega bem", disse ele. "O resultado deveria ser 70 a 30 a favor do 'sim' se fôssemos seguir em frente."
*Melley reportou de Londres. Lorne Cook, de Bruxelas, contribuiu para esta reportagem.
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