🇷🇴 Eleição presidencial na Romênia 2024: Supremo cancela resultado do primeiro turno

Ora anulado por suspeita de influência russa, o resultado tinha sido considerado uma 'surpresa'

🇷🇴 Eleição presidencial na Romênia 2024: Supremo cancela resultado do primeiro turno
Călin Georgescu, candidato independente (sem filiação partidária) e alinhado à extrema direita, ficou em 1º lugar no 1º turno na Romênia / Imagem: Reprodução/Instagram
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O Supremo Tribunal da Romênia (🇷🇴) cancelou o resultado do 1º turno da eleição presidencial do país na manhã desta sexta-feira (6.dez.2024), seguindo o horário oficial de Brasília. O 2º turno, que não vai mais ocorrer, estava marcado para este domingo (8.dez).

O resultado foi anulado depois que os serviços de segurança do país alertaram que a votação foi distorcida por uma campanha de influência em massa da Rússia (🇷🇺). O objetivo seria favorecer um candidato de extrema direita.

Realizado no dia 24 de novembro de 2024, o 1º turno da eleição presidencial na Romênia (🇷🇴) foi surpreendente. Candidato de extrema direita, Calin Georgescu, 62 anos, ficou em 1º lugar. Teve 22,94% dos votos, enquanto as últimas pesquisas antes do pleito apontavam cerca de 5%. Depois, a boca de urna indicou 16%.

Georgescu se beneficiou de uma campanha no TikTok considerada semelhante a operações de influência russas na Ucrânia (🇺🇦) e na Moldávia (🇲🇩), de acordo com os serviços de inteligência romenos. Ele teria sido beneficiado por algoritmos e ações coordenadas entre contas, além de promoção paga.

Os documentos do serviço de inteligência romeno também mostram uma série de ataques cibernéticos no período eleitoral.

O candidato de extrema direita era crítico da ajuda militar da Romênia (🇷🇴) à Ucrânia (🇺🇦) e favorável a uma aproximação com a Rússia (🇷🇺).

Esse posicionamento político contrasta com o atual alinhamento do país, que integra a União Europeia (🇪🇺) e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), aliança militar liderada pelos Estados Unidos (🇺🇸) e que tem participação de quase todos os países da Europa. (*Detalhes abaixo)

O 2º turno, que ocorreria neste domingo (8.dez.2024), tinha outra surpresa: seria disputado pela candidata de centro-direita Elena Lasconi, 52 anos, prefeita de uma pequena cidade romena. Ela ficou em 2º lugar no 1º turno com pouco mais de 1 mil votos à frente do 3º colocado, que era o favorito, o primeiro-ministro Marcel Ciolacu.

Eis abaixo o resultado do 1º turno da eleição na Romênia em 2024, ora cancelado:

  • 🥇 Călin Georgescu (independente, extrema direita): 22,94%
  • 🥈 Elena Lasconi (USR, União Salvar a Romênia): 19,17%
  • 🥉 Marcel Ciolacu (PSD, Partido Social Democrata; é o atual primeiro-ministro da Romênia): 19,15%
  • 🏁 George Simion (AUR, Aliança pela União dos Romenos): 13,87%

A decisão de cancelar o resultado do 1º turno, no entanto, tende a ser fortemente contestada dentro da Romênia (🇷🇴) por diferentes espectros políticos –tanto a extrema direita como liberais reformistas.

Isso porque o resultado eleitoral tinha sido visto como uma expressão do sentimento de mudança dos romenos com o status quo do país, há muito tempo governado pelo partido de Ciolacu.


*Observações:

Exatamente entre as datas do 1º e do 2º turno, no dia 1º de dezembro de 2024, os romenos tiveram eleições legislativas. Neste caso, houve vitória da esquerda e avanço da extrema direita. As duas coisas juntas. Ainda não sabemos se este resultado também foi alterado.

Será necessário aguardar os próximos desdobramentos sobre a eleição na Romênia para reportar precisão. Este conteúdo pode ser atualizado a qualquer instante com novas informações.

Abaixo, entenda mais sobre como é a eleição na Romênia, incluindo o sistema eleitoral, seus principais candidatos e os contextos socioeconômico e geopolítico.


Quem é quem na eleição da Romênia em 2024?

👤 Călin Georgescu. O agrônomo Georgescu, de extrema direita, concorreu à Presidência como candidato independente. Sem filiação partidária.

Isso porque deixou seu partido anterior, que apoiava a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), grupo militar liderado pelos Estados Unidos (🇺🇸) e integrado por quase todos os países da Europa.

Georgescu não apenas é contrário à Otan, como defende uma aproximação com a Rússia (🇷🇺). O candidato descreveu uma adesão da Romênia à Otan como uma "terceirização" da segurança nacional.

Georgescu promoveu sua campanha nas redes sociais, notadamente no TikTok, onde focou em tópicos como a segurança e soberania nacional, por exemplo. Ele costuma criticar a ajuda militar à Ucrânia (🇺🇦).

👤 Elena Lasconi. Jornalista de formação, é a atual prefeita de centro-direita de Câmpulung, uma pequena cidade. Foi eleita em 2020 e reeleita em 2024, mesmo ano em que também foi eleita para presidir a sigla USR (pela qual se candidatou à Presidência). É considerada uma candidata reformista, que enfrenta questionamentos sobre sua experiência na política nacional.

Lasconi, no entanto, faz contraste com o seu adversário no 2º turno. Como jornalista, foi correspondente de guerra e defende o aumento dos gastos com defesa, além da continuidade da assistência militar e humanitária à Ucrânia, especialmente em um contexto de crescente tensão na região.

Ela tem promovido uma agenda que reforça o compromisso da Romênia com as alianças ocidentais, fortalecendo os laços da Romênia com a Otan e a União Europeia (🇪🇺).

👤 Marcel Ciolacu. Atual primeiro-ministro (cargo que assumiu no dia 13 de junho de 2023). Também é presidente do PSD (Partido Social Democrata), liderando o maior partido da Romênia desde 2019. É considerado de centro-esquerda, está alinhado à Otan, ao apoio à Ucrânia e à União Europeia (🇪🇺).

Basicamente, Ciolacu:

  • Tem buscado equilibrar políticas sociais com medidas de estabilidade econômica.
  • Defende uma abordagem pragmática nas relações internacionais, mantendo laços fortes com os aliados ocidentais da Romênia.

👤 George Simion. Outro candidato considerado de extrema direta, Simion foi apelidado de "Trump romeno". Fã declarado do presidente eleito dos Estados Unidos (🇺🇸), afirmou em campanha que acabaria com o apoio militar e político dado à Ucrânia (🇺🇦) contra a Rússia (🇷🇺).

Ele é uma figura polarizadora na política romena, com apoio crescente entre os eleitores que buscam alternativas aos partidos tradicionais. Sua ascensão reflete uma tendência mais ampla na Europa e no mundo, onde partidos nacionalistas e populistas têm ganhado destaque.

Formado em História e Relações Internacionais na Universidade de Bucareste, Simion co-fundou o AUR (Aliança pela União dos Romenos) em 2019. A sigla se posiciona como um partido conservador, defendendo valores tradicionais e a soberania nacional.

Contexto eleitoral da Romênia em 2024

Com cerca de 19 milhões de habitantes, a Romênia é um dos países mais pobres da União Europeia. Tem a maior inflação e o maior déficit orçamentário do bloco. Estes são fatores de insatisfação popular, e o ambiente político tenso em que ocorre a eleição tem levado os candidatos a adotar posturas mais populistas.

Outras questões relevantes neste pleito são a aproximação com a Rússia ou a manutenção do alinhamento à União Europeia e à Otan. A guerra na Ucrânia, país vizinho da Romênia, está no pano de fundo.

Isso porque a Romênia participa da Otan desde 2004, num esforço feito para se integrar às estruturas de segurança ocidentais depois da Guerra Fria e abrir a economia. O país também se tornou membro da União Europeia em 2007, o que reforçou sua posição geopolítica.

Uma vitória de Georgescu, que já foi elogiado pelo presidente russo Vladimir Putin, colocaria esse posicionamento em xeque. (*Veremos a seguir até onde o presidente romeno pode ir).

Características eleitorais da Romênia

  • Tipo de governo. A Romênia é uma república semipresidencialista, em que o presidente é o chefe de Estado e o primeiro-ministro é o chefe de governo.
    • No caso do presidente, seus maiores poderes se concentram em decisões sobre segurança nacional, política externa e nomeações judiciais, além de representar o país no cenário internacional.
  • Eleições presidenciais: O presidente é eleito diretamente pelo povo para um mandato de 5 anos, com possibilidade de reeleição. As eleições são realizadas em 2 turnos, caso nenhum candidato obtenha mais de 50% dos votos no 1º turno.
  • Eleições legislativas: O Parlamento romeno é bicameral, composto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Os membros da Câmara dos Deputados são eleitos por um sistema proporcional, enquanto os senadores são eleitos por um sistema misto que combina representação proporcional e majoritária.
    • Ao todo, o Parlamento tem 330 membros. O sistema de representação proporcional tem 43 circunscrições, com alguns assentos reservados para minorias nacionais.
    • Obrigatoriamente, para ter representação no Parlamento, os partidos devem ultrapassar um limite de 5% do total de votos. Na eleição anterior (2020), só 5 partidos conseguiram superar esse obstáculo. Chama-se "quociente eleitoral".
    • Como alguns candidatos são "eleitos", mas os partidos não conseguem superar esse quociente eleitoral, os assentos ficam vazios e precisam ser redistribuídos entre aqueles que conseguiram ultrapassar a marca.
    • Ou seja, se o mesmo padrão de 2020 se repetir, 15% a 20% dos assentos no Parlamento podem ser redistribuídos para aqueles que passarem dos 5%, o que tende a impulsionar os partidos maiores.

Como é processo de votação na Romênia?

  • Voto direto. Os cidadãos romenos votam diretamente em candidatos para a Presidência e para os membros do Parlamento.
  • Voto secreto e obrigatório (mas tem registrado grande abstenção). A taxa de comparecimento nas eleições pode variar. Nas eleições presidenciais mais recentes, 2024, cerca de 52% dos eleitores elegíveis participaram do pleito.
  • Mesas de voto. Nas eleições, são estabelecidas milhares de mesas de voto em todo o país. Para as eleições presidenciais de 2024, por exemplo, foram abertas mais de 19.000 mesas na Romênia e um número recorde de 950 mesas no exterior para atender aos romenos que vivem fora do país.
  • Voto no estrangeiro. Os romenos que vivem no exterior têm a oportunidade de votar em suas embaixadas ou consulados, com um número crescente de mesas de voto sendo disponibilizado para facilitar a participação da diáspora (muitos romenos deixaram o país por causa das dificuldades econômicas).
  • Autoridade Eleitoral Permanente. É a responsável pela supervisão do processo eleitoral, incluindo a organização das eleições e a contagem dos votos.

Author

Maurício de Azevedo Ferro
Maurício de Azevedo Ferro

Jornalista e empreendedor. Criador/CEO do Correio Sabiá. Emerging Media Leader (2020) pelo ICFJ. Cobriu a Presidência da República.

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